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In Moliceiro coffee, at the entrance to Cais do Bico, some customers drink coffee and read the newspaper at the counter. A little further ahead, several fishing boats, such as Petinguinha, Lacrau or João Vítor, are lined up at the pier while fishermen tend to their nets. On the bow of the moliceiro Menino da Ria, a painted panel reads “ele já não dá com o buraco” captioning an image of a woman exasperatedly watching her fiancé trying to insert a key into a lock.
A van from CESAM – Centre for Environmental and Marine Studies at the University of Aveiro (UA) is parked next to a sign pointing to the Moliceiro Boarding Pier. Researcher Ana Sousa takes from the trunk a bag with the fishermen’s suits we’ll be wearing for the next few hours. We put them on, not without some effort, and are now inside a rubber capsule that will protect us from water and mud.
We board the Chincha, a small motorboat from UA, and Aldiro Pereira, an employee from the Environment Department piloting the vessel toward the lagoon’s interior, asks us a somewhat unsettling question:
“Do you know what you’re getting yourselves into?”
We admit we don’t really. But in truth, we should have guessed they weren’t taking us to some pristine paradise. In an email received the day before, UA had warned: “Participants are advised to bring good spirits, casual clothing that can get dirty, and fishing boots.”
Gripping the helm, Aldiro Pereira steers the Chincha toward a mud island in the lagoon, formed at low tide. After ten minutes we arrive. There, a group of two researchers and a Marine Biology student are busy planting moliço – taking small samples of these seagrasses from areas where they are abundant and transplanting them into more barren zones, burying them in the sludge.
“If you’re going to fall…”
Still on the boat, raising her voice above the engine noise, Ana Sousa explains that this activity is part of the A-AAGORA and REWRITE projects, which aim at “restoring the Ria de Aveiro.”
“It’s about informing, raising awareness, and involving citizens in the protection of our region’s natural heritage,” she says.
The presence of moliço in the lagoon, she points out, brings several benefits to the ecosystem – it provides habitat for invertebrate species like clams, serves as a nursery for fish reproduction, and even contributes to mitigating climate change by helping to capture carbon.
“It’s important for the lagoon’s biodiversity,” she summarizes, explaining that the decline of moliço, which had been very steep in recent decades, has gradually been curbed.
This restoration effort began in 2019, under another UA project, with good results already visible: growing patches of seagrass are now found in more areas of the lagoon. This time, we are crossing the lagoon along the Laranjo canal, departing from Cais do Bico, in Murtosa, under a lead-colored sky with occasional drizzle.
When we reach our destination, researcher Pedro Coelho and student Mariana Pinto are kneeling in a large muddy expanse where each step leaves the imprint of their boot soles.
Before disembarking, Ana Sousa had given us some advice on the precarious exercise of walking on mud:
“If you fall, fall forward, onto your knees,” she recommended.
I quickly learned the usefulness of this advice – had I fallen flat on my back, the embarrassment would have been greater and getting up again much harder.
Another trick, she says, is to keep moving whenever possible – if you stay standing in one spot, your legs sink almost to your knees. The deeper you sink, the harder it is to pull your feet out of the muck.
On that vast plain of water and mud, each of the three UA members, with both knees pressed into the ground, uses a small cylinder driven into the soil up to its rim, then lifted with hands underneath, now filled with moliço. These plugs are placed in trays that, once full, are dragged on a sled-like board to the spots where the seagrass will be replanted – where it is expected to spread naturally.
Up to this point we simply observe, ask questions, and try to keep our balance to avoid humiliation. Then Pedro Coelho challenges us to try it ourselves: they hand me a cylinder, which I drive into the mud, pull up, and place on the tray; I glance at my hands and no longer see skin, only the soft dark mud of the lagoon; then I carry some of these samples to the recipient areas – as Ana Sousa calls them – about a hundred meters from the collection sites.
“I demand my name on the project credits,” I joke.
Meanwhile, Aldiro Pereira sticks cane stakes into the ground to mark the newly planted areas. It’s slow, laborious, difficult, dirty work.
“We stay as long as the tide allows,” says the researcher. “It can last up to four hours.”
We don’t stay until the end. We bid farewell to Ana, Pedro, and Mariana, skipping handshakes. The three remain devoted to the moliço while we return to the Chincha, following Aldiro’s lead. At 68, he brings us back to Cais do Bico, where we strip off our life vests and rubber suits.
(PT)
No Café Moliceiro, à entrada do Cais do Bico, alguns clientes bebem café e leem o jornal ao balcão. Um pouco à frente, vários barcos de pesca, como o Petinguinha, o Lacrau ou o João Vítor, estão alinhados no cais enquanto os pescadores tratam das redes de pesca. Na proa do moliceiro “Menino da Ria” lê-se no painel “ele já não dá com o buraco”, legenda de uma imagem em que uma mulher exasperada olha para o noivo que tenta introduzir uma chave na fechadura.
Uma carrinha do CESAM – Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, da Universidade de Aveiro (UA), está estacionada junto a uma placa que aponta para o Cais de Embarque de Moliceiros. A investigadora Ana Sousa retira da mala um saco com os fatos de pescador que envergaremos nas próximas horas. Vestimo-los, não sem algum esforço, e estamos agora no interior de uma cápsula de borracha que nos protegerá da água e da lama.
Subimos a bordo do “Chincha”, um pequeno barco a motor da UA, e Aldiro Pereira, funcionário do Departamento de Ambiente que pilota a embarcação rumo ao interior da ria, lança-nos uma pergunta que nos deixa algo inquietos:
«vocês sabem no que se vão meter?»
Não sabemos bem, assumimos. Mas, na verdade, já devíamos desconfiar que não nos levariam para um paraíso de limpeza. Num e-mail recebido na véspera, a UA pedia: «aos participantes, aconselha-se boa disposição, roupa casual que se possa sujar e botas de pesca».
Agarrado ao leme, Aldiro Pereira conduz o “Chincha” para uma ilha de lama no interior da ria, formada pela maré vaza
Agarrado ao leme, Aldiro Pereira conduz o “Chincha” para uma ilha de lama no interior da ria, formada pela maré vaza. Chegamos ao fim de dez minutos. É lá que um grupo de dois investigadores e uma estudante de Biologia Marinha Aplicada se dedicam à plantação de moliço – retiram pequenas amostras destas ervas marinhas de locais onde são abundantes e transplantam-nas para outros mais áridos, enterrando-as no lodo.
«Se for para cair…»
Esta atividade, explica Ana Sousa ainda no barco, projetando a voz por cima do estrépito do motor, é uma iniciativa dos projetos A-AAGORA e REWRITE, que visa «o restauro da Ria de Aveiro».
«Trata-se de informar, sensibilizar e envolver os cidadãos na proteção do património natural da nossa região», diz.
A existência de moliço na ria comporta vários benefícios a este ecossistema, assinala a investigadora – serve de habitat a diversas espécies de invertebrados, como a amêijoa, e de berçário no processo de reprodução dos peixes; e tem ainda uma função de mitigação das alterações climáticas, ajudando ao sequestro de carbono.
«É importante para a biodiversidade da ria», resume, explicando que o declínio do moliço, muito acentuado nas últimas décadas, tem vindo a ser paulatinamente travado.
Esta operação de restauro teve início em 2019, à luz de outro projeto da UA, com bons resultados que são já visíveis, havendo manchas cada vez maiores destas ervas em mais locais da laguna. Desta vez, percorremos a ria pelo canal do Laranjo, a partir do Cais do Bico, na Murtosa, debaixo de um céu cor de chumbo, de onde caem chuviscos esporádicos.
Quando atingimos o nosso destino, o investigador Pedro Coelho e a estudante Mariana Pinto estão ajoelhados numa grande superfície lamacenta onde, a cada passo, ficam impressas as marcas das solas das botas.
Ana Sousa, antes do desembarque, dera-nos alguns conselhos sobre o precário exercício de caminhar na lama:
«Se for para cair, caiam para a frente, de joelhos», recomendara.
Pude provar, num passo em falso, a utilidade desta recomendação – se me tivesse estatelado de costas, a vergonha teria sido maior e o regresso à posição vertical teria sido mais penoso.
Outro dos truques, diz, é mantermo-nos em movimento sempre que possível – se permanecermos de pé no mesmo sítio, vemos as nossas pernas enterrarem-se quase até aos joelhos. Quanto mais centímetros estiverem soterradas, mais difícil é depois alçar os pés das profundezas.
Naquela imensa planície, misto de água e lama, cada um dos três membros da UA, com ambos os joelhos cravados no solo, está munido de um pequeno cilindro que é enterrado até ao rebordo superior e que depois, com as mãos dispostas por baixo, é içado já com o interior forrado de moliço. Estes discos são colocados nuns tabuleiros que, depois de cheios, são transportados, com a ajuda de uma placa que funciona como trenó, para os sítios onde as ervas serão replantadas – e onde se espera que disseminem por si próprias.
Até ali limitamo-nos a observar o trabalho, a fazer perguntas e a tentar poupar-nos a vexames mantendo o equilíbrio. É então que Pedro Coelho nos desafia a experimentar: passam-me um cilindro para as mãos, que enterro, desenterro e deposito no tabuleiro; olho para as minhas mãos e não vejo a pele, coberta da lama escura e macia da ria; depois transporto alguns destes recipientes para as zonas recetoras, como Ana Sousa lhes chama, a uns cem metros das áreas de recolha.
«Exijo o meu nome na ficha técnica do projeto», aviso a rir.
Aldiro Pereira espeta algumas estacas de cana para demarcar as áreas que vão sendo plantadas. É um trabalho lento, moroso, difícil e sujo.
«Ficamos o tempo da maré», diz a investigadora. «Pode chegar às quatro horas».
Nós não ficamos até ao fim. Despedimo-nos de Ana, Pedro e Mariana, prescindindo dos apertos de mão. Os três mantêm-se dedicados ao moliço enquanto nós regressamos ao “Chincha”, seguindo no encalço de Aldiro. Este homem de 68 anos devolve-nos ao Cais do Bico, onde despimos os coletes e os fatos de borracha.




